O que é o Espiritismo?

Allan Kardec

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V. — É contra os fenômenos provocados que principalmente a crítica se levanta.

Ponhamos de lado toda suposição de charlatanismo, e admitamos a mais completa boa-fé; não será possível que os médiuns sejam vítimas de uma alucinação?

A. K. — Ignoro que já se tenha claramente explicado o mecanismo da alucinação.

Da forma como querem defini-la, ela não deixa de ser um efeito singularíssimo e digno de estudo.


É pena, porém, que aqueles que por meio dela pretendem dar conta dos fenômenos espíritas, não possam antes apresentar a explicação deles.

Há, além disso, fatos que escapam a essa hipótese: quando a mesa ou outro objeto se move, se ergue, ou bate; quando a dita mesa, à vontade, passeia por uma câmara, sem que pessoa alguma lhe toque; quando ela se destaca do solo e se suspende no espaço, sem ponto de apoio; enfim, quando, ao cair, se despedaça, tudo isso não pode ser o efeito de uma alucinação.

Suponho que o médium, por um produto da sua imaginação, creia ver o que não existe. Será admissível que todos os presentes sejam, ao mesmo tempo, vítimas da mesma vertigem? E quando o mesmo fato se reproduz por toda parte, em todos os países? A ser assim, essa alucinação seria prodígio maior que o próprio fato.

V. — Admitindo a realidade do fenômeno das mesas que giram e falam, não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer, do magnético, por exemplo?

A. K. — Tal foi o primeiro pensamento que tive, como tantos outros.

Se tudo se limitasse a esses efeitos materiais, não há dúvida de que poderiam ser assim explicados; porém, quando esses movimentos e golpes nos deram provas de inteligência; quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira liberdade, foi-se levado a tirar a seguinte conclusão:

“Se todo efeito tem uma causa, o efeito inteligente tem uma causa inteligente.”

Poderão tais fenômenos ser produzidos por um fluido, sem se admitir que esse fluido seja dotado de inteligência?

Quando vedes os aparelhos do telégrafo fazerem sinais transmitindo o pensamento, bem compreendeis que esses aparelhos, de ferro ou de madeira, não são inteligentes, mas que é uma inteligência quem os faz mover. Dá-se o mesmo com as mesas a que nos referimos. Dão-se, ou não, efeitos inteligentes? Esta a questão.

Os que contestam, são pessoas que nada viram ainda e se apressam a concluir, segundo suas idéias particulares e baseadas, quando muito, em observação superficial.

V. — Pode-se responder que, se há um efeito inteligente, este pode ser um reflexo da inteligência, seja do médium, seja de quem interroga, ou mesmo dos assistentes; porque, dizem, a resposta recebida estava sempre no pensamento de alguém.

A. K. — É ainda um erro, filho da falta de observação.

Se os que assim pensam se tivessem dado ao trabalho de estudar o fenômeno em todas as suas fases, não deixariam de reconhecer, a cada passo, a independência absoluta da inteligência que se manifesta.

Como conciliar essa tese com as respostas obtidas, tão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? respostas que vão de encontro às suas idéias, desejos e opiniões, ou que destroem completamente as previsões dos assistentes? Quando os médiuns escrevem em uma língua que não conhecem, ou escrevem na sua própria quando não sabem ler nem escrever? À primeira vista, essa opinião nada tem de irracional, convenho, mas é desmentida por um conjunto de fatos tão concludentes que, diante deles, é impossível duvidar. Além disso, mesmo admitindo-se essa teoria, o fenômeno, longe de ser simplificado, seria muito mais prodigioso.

Pois quê! o pensamento poderá refletir-se sobre uma superfície, como a luz, o som, o calórico?!

Em verdade, havia nisto um motivo para a Ciência exercer a sua sagacidade.

E depois ainda o maravilhoso seria maior, porque, achando-se presentes vinte pessoas, será o pensamento desta ou daquela que é refletido, ou o desta ou daquela outra? Tal sistema é insustentável.



É realmente curioso ver-se os contraditores empenharem-se na busca de causas, cem vezes mais extraordinárias e incompreensíveis do que aquelas que se lhes apresenta.

V. — Não será admissível, segundo querem alguns, que o médium se ache em estado de crise e goze certa lucidez, que lhe dá a percepção sonambúlica — espécie de dupla vista —, que aliás nos pode explicar a ampliação momentânea de suas faculdades intelectuais? Por que, dizem, as comunicações obtidas pelos médiuns não vão além do alcance das que nos dão os sonâmbulos?

A. K. — É ainda esse um desses sistemas que não resistem a um exame aprofundado. O médium nem se acha em crise nem dorme, mas está perfeitamente acordado, agindo e pensando como os outros, sem nada apresentar de extraordinário. Certos efeitos particulares deram lugar a essa suposição; porém, quem se não limitar a julgar as coisas, por uma só face, reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade particular, que não permite confundi- lo com o sonâmbulo, sendo a independência do seu pensamento demonstrada por fatos da maior evidência.

Abstraindo das comunicações escritas, qual o sonâmbulo que fez alguma vez sair um pensamento de um corpo inerte? Qual deles pôde produzir aparições visíveis e, mesmo, tangíveis? Qual fez que um corpo pesado se mantivesse suspenso no ar, sem ponto de apoio?

Será por efeito sonambúlico que certo médium desenhou, um dia, em minha casa e na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma jovem, morta havia dezoito meses e a quem ele não conhecera, retrato reconhecido pelo próprio pai da jovem, presente então à sessão? Será por efeito do mesmo gênero que uma mesa responde com precisão às questões propostas, mesmo feitas mentalmente? Certamente, se admitirmos que o médium se ache em estado magnético, parece-me difícil crer que a mesa seja sonâmbula.


Dizem, ainda, que os médiuns só falam com clareza daquilo que é conhecido. Como explicar o fato seguinte e cem outros da mesma espécie? — Um dos meus amigos, muito bom médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele tinha perdido de vista, havia quinze anos, era ainda deste mundo.

“Sim, ainda vive, foi-lhe respondido; mora em Paris, rua tal, número tanto.”

Ele foi e encontrou a pessoa no lugar indicado.

Seria isso uma ilusão?

Seu pensamento poderia sugerir-lhe tal resposta, quando, por causa da idade da pessoa por quem ele perguntava, havia toda a probabilidade de ela não existir mais?

Se, em certos casos, vemos respostas combinarem com o pensamento de quem pergunta, será racional concluirmos que isso seja uma lei geral?

Nisso como em todas as coisas, são sempre perigosos os juízos precipitados, porque eles podem ser desmentidos pelos fatos que ainda se não observaram.

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