O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo

Allan Kardec

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Era filho único, morto de tuberculose, aos dezoito anos. Inteligência rara, razão precoce, grande amor pelo estudo, caráter doce, afetuoso e simpático, possuía todas as qualidades que dão as mais legítimas esperanças de um brilhante futuro. Seus estudos haviam terminado cedo com o maior sucesso, e ele se preparava para a Escola Politécnica. Sua morte foi para os pais a causa de uma dessas dores que deixam marcas profundas, e tanto mais penosas quanto tendo tido sempre uma saúde delicada, eles atribuíam seu fim prematuro ao trabalho ao qual o haviam impelido, e censuravam-se por isso. “De que, diziam eles, lhe serve agora tudo o que aprendeu? Mais valera que tivesse ficado ignorante, pois não precisava disso para viver, e sem dúvida ainda estaria entre nós; teria sido a consolação de nossa velhice.” Se eles tivessem conhecido o Espiritismo, teriam sem dúvida raciocinado de outra maneira. Mais tarde, encontraram nele a verdadeira consolação. A comunicação seguinte foi dada pelo filho a um dos amigos dos pais, alguns meses após a morte:

P. Meu caro Maurice, o terno apego que tínheis por vossos pais faz com que eu não duvide de vosso desejo de restaurar a coragem deles, se isso está em vosso poder. A tristeza, o desespero em que vossa morte os mergulhou, altera visivelmente a saúde deles e os faz ter aversão pela vida. Algumas boas palavras vossas poderão sem dúvida fazer renascer neles a esperança.

R. Meu velho amigo, aguardava com impaciência a ocasião que me ofereceis de me comunicar. A dor de meus pais aflige-me, mas ela se acalmará quando eles tiverem a certeza de que não estou perdido para eles; deveis dedicar-vos a convencê-los desta verdade, e conseguireis certamente. Era preciso este acontecimento para levá-los a uma crença que fará a felicidade deles, pois impedi-los-á de murmurar contra os decretos da Providência. Meu pai, vós o sabeis, era muito cético a propósito da vida futura; Deus permitiu que ele tivesse esta aflição para tirá-lo de seu erro.


Nós nos reencontraremos aqui, neste mundo onde não se conhecem mais os desgostos da vida, e no qual os precedi; mas dizei-lhes claramente que a satisfação de me rever aqui lhes seria recusada como punição de sua falta de confiança na bondade de Deus. Ser-me-ia mesmo proibido, de agora em diante, me comunicar com eles enquanto estiverem na terra. O desespero é uma revolta contra a vontade do Onipotente, e que é sempre punida pelo prolongamento da causa que trouxe esse desespero, até que haja enfim submissão. O desespero é um verdadeiro suicídio, pois mina as forças do corpo, e aquele que abrevia seus dias com o pensamento de escapar mais cedo às constrições da dor, prepara para si as mais cruéis decepções; ao contrário, é para manter as forças do corpo que é preciso trabalhar para suportar mais facilmente o peso das provas.

Meus bons pais, é a vós que me dirijo. Desde que deixei meus restos mortais, não cessei de estar junto de vós, e estou aí mais frequentemente do que quando vivia na terra. Consolai-vos, portanto, pois não morri; estou mais vivo do que vós; só meu corpo morreu, mas meu Espírito vive sempre. Ele é livre, feliz, doravante ao abrigo das doenças, das enfermidades e da dor. Em vez de vos afligirdes, regozijai-vos por me saber num meio isento de preocupações e de alarmes, onde o coração está inebriado de uma alegria pura e sem mistura.

Oh! meus amigos, não lastimeis aqueles que morrem prematuramente; é uma graça que Deus lhes concede, poupar-lhes as atribulações da vida. Minha existência não devia prolongar-se por muito mais tempo desta vez na terra; eu adquirira aí o que devia adquirir a fim de me preparar para cumprir mais tarde uma missão mais importante. Se tivesse vivido aí longos anos, sabeis a que perigos, a que seduções teria sido exposto? Sabeis que se, não sendo ainda bastante forte para resistir, eu tivesse sucumbido, podia ser para mim um atraso de vários séculos? Por que então lamentar o que me é vantajoso? Uma dor inconsolável, neste caso, acusaria uma falta de fé que não poderia ser legitimada senão pela crença no nada. Oh! sim, eles são de lamentar, esses que têm essa crença desesperante, pois para eles não há consolação possível; os seres que lhes são caros estão perdidos para sempre; a sepultura levou-lhes a última esperança!


P. Vossa morte foi dolorosa?

R. Não, meu amigo, só sofri antes de morrer por causa da doença que me levou, mas esse sofrimento diminuía à medida que o último momento se aproximava; depois, um dia, adormeci sem pensar na morte. Sonhei; oh! um sonho delicioso! Sonhava que estava curado; não sofria mais, respirava a plenos pulmões e com volúpia um ar perfumado e fortalecedor; era transportado através do espaço por uma força desconhecida; uma luz brilhante resplandecia à minha volta, mas sem me cansar a vista. Vi meu avô; ele não tinha mais a figura descarnada, mas sim um ar de frescor e de juventude; estendeu-me os braços e me apertou efusivamente contra o coração. Uma multidão de outras pessoas, de rosto sorridente, o acompanhava; todas me acolhiam com bondade e benevolência; parecia-me reconhecê-las, estava feliz de revê-las, e todos juntos trocávamos palavras e provas de amizade. Pois bem! o que eu acreditava ser um sonho era a realidade; eu não devia mais despertar na terra: despertara no mundo dos Espíritos.


P. Não teria vossa doença sido causada por vossa assiduidade excessiva ao estudo?


R. Oh! não, ficai bem persuadido disso. O tempo que eu devia viver na terra estava marcado, e nada me podia reter aí por mais tempo. Meu Espírito, nos seus momentos de desprendimento, sabia-o bem, e estava feliz pensando em sua libertação próxima. Mas o tempo que passei aí não foi sem proveito, e congratulo-me hoje por não o ter perdido. Os estudos sérios que fiz fortaleceram minha alma e aumentaram meus conhecimentos; sempre é algo aprendido, e se não pude aplicá-los em minha curta estada entre vós, aplicá-los-ei mais tarde com maior proveito.


Adeus, caro amigo, vou para junto de meus pais, dispô-los a receber esta comunicação. MAURICE

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